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DIA 27 DE AGOSTO DE 2006

 

--Editorial

 

Choque da realidade

A situação da adolescente agredida em plena avenida Sarandi, em Rivera, serve como alerta para a comunidade da Fronteira da Paz sobre o problema do menor carente nos dois municípios. Apesar da existência e de todo o esforço feito por instituições governamentais e entidades não oficiais, ainda há muitos casos de total desamparo, que escapam facilmente por entre os dedos protetores do Estado e dos abnegados voluntários e sobre os quais, infelizmente, muitas vezes a sociedade somente toma conhecimento quando ocorrem tragédias pessoais como a da jovem queimada em Rivera.
Vítima de um lar feito em pedaços, criada pelas ruas apesar do apoio sempre ofertado pelo Iname uruguaio, agredida, subnutrida, explorada, enfim, a situação dessa menor realmente chocou a comunidade fronteiriça. A verdadeira discussão, porém, tem que abordar um prisma bem mais profundo, que são as causas da situação dessa e de tantos outros menores, alguns até de menos idade, que perambulam pelas ruas e aos quais muitas se nega uma ajuda com um rápido meneio de cabeça, nos semáforos da vida. O que levou esses pequenos a essa situação?
A sociedade tem toda a responsabilidade por isso. Ninguém pode dar-se ao luxo de afirmar já ter feito ou estar fazendo sua parte, transferindo toda a culpa pela inexistência de ações efetivas de apoio à formação da cidadania para os órgãos governamentais - até porque essas mesmas lideranças às quais se atribui a responsabilidade foram eleitas, historicamente, pela própria sociedade. Ou seja, cada um daqueles que tentam analisar a situação do menor de rua com a distância que lhe outorga o fato de não exercer diretamente cargo público - como se não o exercesse indiretamente, através daqueles a quem confiou seu voto.
É preciso que a sociedade como um todo passe a analisar o problema do menor sob um novo prisma: o da responsabilidade individual. Cada aspecto da vida comunitária relegado a um segundo plano certamente refletirá na sociedade do amanhã. Em outras palavras, cada criança fora da escola, sem um lar digno, sem saúde, sem preparação para a vida em comunidade, no futuro próximo, certamente será resultado de uma sociedade mal formada. E essa sociedade, por sua vez, será resultado inexorável das ações que cada cidadão de bem adotar hoje. A responsabilidade, individual ou coletiva, não pode ser eternamente transferida. Cada um tem que fazer sua parte, para que o amanhã seja mais digno para todas as crianças, permitindo a elas estar preparadas para manter e melhorar ainda mais a vida comunitária e gerar crianças ainda mais preparadas, e assim sucessivamente até que, um dia, se tenha um mundo mais igualitário, mais justo, em que alguns pequenos deixem de ser mais um elemento das esquinas do trânsito. Chega de tratar tão superficialmente um problema tão sério. A responsabilidade é de todos os cidadãos. Por isso é tão importante que cada um dedique um pouco de seu tempo, de seu trabalho, de sua capacidade solidária de dividir, para auxiliar na construção de um amanhã realmente mais saudável para as próximas gerações.






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