Choque da realidade
A situação da adolescente agredida em plena avenida
Sarandi, em Rivera, serve como alerta para a comunidade da Fronteira
da Paz sobre o problema do menor carente nos dois municípios.
Apesar da existência e de todo o esforço feito por
instituições governamentais e entidades não
oficiais, ainda há muitos casos de total desamparo, que
escapam facilmente por entre os dedos protetores do Estado e dos
abnegados voluntários e sobre os quais, infelizmente, muitas
vezes a sociedade somente toma conhecimento quando ocorrem tragédias
pessoais como a da jovem queimada em Rivera.
Vítima de um lar feito em pedaços, criada pelas
ruas apesar do apoio sempre ofertado pelo Iname uruguaio, agredida,
subnutrida, explorada, enfim, a situação dessa menor
realmente chocou a comunidade fronteiriça. A verdadeira
discussão, porém, tem que abordar um prisma bem
mais profundo, que são as causas da situação
dessa e de tantos outros menores, alguns até de menos idade,
que perambulam pelas ruas e aos quais muitas se nega uma ajuda
com um rápido meneio de cabeça, nos semáforos
da vida. O que levou esses pequenos a essa situação?
A sociedade tem toda a responsabilidade por isso. Ninguém
pode dar-se ao luxo de afirmar já ter feito ou estar fazendo
sua parte, transferindo toda a culpa pela inexistência de
ações efetivas de apoio à formação
da cidadania para os órgãos governamentais - até
porque essas mesmas lideranças às quais se atribui
a responsabilidade foram eleitas, historicamente, pela própria
sociedade. Ou seja, cada um daqueles que tentam analisar a situação
do menor de rua com a distância que lhe outorga o fato de
não exercer diretamente cargo público - como se
não o exercesse indiretamente, através daqueles
a quem confiou seu voto.
É preciso que a sociedade como um todo passe a analisar
o problema do menor sob um novo prisma: o da responsabilidade
individual. Cada aspecto da vida comunitária relegado a
um segundo plano certamente refletirá na sociedade do amanhã.
Em outras palavras, cada criança fora da escola, sem um
lar digno, sem saúde, sem preparação para
a vida em comunidade, no futuro próximo, certamente será
resultado de uma sociedade mal formada. E essa sociedade, por
sua vez, será resultado inexorável das ações
que cada cidadão de bem adotar hoje. A responsabilidade,
individual ou coletiva, não pode ser eternamente transferida.
Cada um tem que fazer sua parte, para que o amanhã seja
mais digno para todas as crianças, permitindo a elas estar
preparadas para manter e melhorar ainda mais a vida comunitária
e gerar crianças ainda mais preparadas, e assim sucessivamente
até que, um dia, se tenha um mundo mais igualitário,
mais justo, em que alguns pequenos deixem de ser mais um elemento
das esquinas do trânsito. Chega de tratar tão superficialmente
um problema tão sério. A responsabilidade é
de todos os cidadãos. Por isso é tão importante
que cada um dedique um pouco de seu tempo, de seu trabalho, de
sua capacidade solidária de dividir, para auxiliar na construção
de um amanhã realmente mais saudável para as próximas
gerações.