Sem benefício e
com dor de cabeça
A jornada da empregada doméstica
Ana Paula Garcia Moraes, 31 anos, começa
às 7h30, de segunda-feira a sábado.
As 8h, ela, que mora no Bairro Prado, precisa
pegar o ônibus rumo ao centro da cidade
para trabalhar. O percurso, de 15 a 20 minutos,
é percorrido novamente depois que
sai do serviço, às 16h, e
pega os dois filhos onde estudam. Por dia,
Ana Paula, que trabalha na função
há 15 anos, utiliza dois vales-transporte,
já que caminhar não é
a melhor alternativa.
"Não dá pra vir a pé,
não tem condições,
porque é longe", enfatiza.
Pela Lei 7.418/85, ela, como as demais domésticas,
tem assegurado o direito de receber as passagens
do empregador. Ana Paula sabe que no dia
28 de cada mês receberá um
pacote com 50 vales. Para o patrão
dela, o empresário Ricardo Senna
de Oliveira, o custo, por mês, com
as fichas era de R$ 28,00 - cada uma ao
preço de R$0,56.
Mudança
No momento, a situação é
diferente e pode gerar uma dor de cabeça
e tanta para os empregadores como Ricardo
Oliveira. O desconto de 60% que eles tinham
na compra das passagens (com valor integral
de R$1,40) para seus funcionários,
com base na Lei Municipal 4.981, de 9 de
setembro de 2005, foi revogado. Julgamento,
em março do ano passado, de uma ação
direta de inconstitucionalidade (Adin) pelo
Tribunal de Justiça do Estado do
Rio Grande do Sul, declarou a lei como inconstitucional.
Durante um ano, o Sindicato das Empresas
de Transportes Urbano e Coletivo de Sant'Ana
do Livramento (STU) manteve o benefício.
Mas desde segunda-feira, 14 de abril, não
são mais vendidas fichas na cor diferente
para os trabalhadores domésticos,
que agora usam vales-transporte na cor laranja,
como os demais cidadãos santanenses.
No entanto, o STU alerta que as passagens
específicas compradas até
a semana passada para essa classe podem
ser usadas até que acabem.
De acordo com o STU, a suspensão
do desconto não afeta a categoria,
pois são os empregadores que devem
suportar os gastos com os vales pelos seus
empregados. Mas, as domésticas podem
sim ser afetadas, como será Ana Paula
Garcia Moraes. Antes, quando as 50 passagens
custavam R$28,00, ela não tinha diminuída
a sua remuneração em até
6%, o que é permitido por lei. Mas,
com o aumento, Ricardo Oliveira diz que
não tem jeito e usará a norma,
descontando no salário de Ana Paula.
Em outros casos, acredita que a situação
pode até ser pior:
"Sendo R$70,00 tem que descontar. Vai
atingir bastante (as domésticas)
e vai ter empregada trabalhando até
sem carteira", afirma.
Justificativa
Se para empregadores e funcionários
o julgamento foi uma má notícia,
quem é do ramo comemorou o resultado,
a retirada dos 60% foi um alívio.
Segundo Ricardo Portantiolo, diretor de
uma empresa de transporte coletivo na cidade,
houve interesse na revogação
do benefício porque há mais
de três anos o valor das passagens
não é reajustado.
Com a medida, ele espera que investimentos
possam ser realizados nas frotas de ônibus.
"O objetivo é reduzir as despesas
para evitar o sucateamento que a cidade
já passou", diz. Ainda, para
Portantiolo, apenas se está efetuando
a ordem encaminhada pelo tribunal.

Ana Paula será afetada pela medida,
que vale desde segunda-feira em Livramento
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