De volta às cadeias
A reimplantação da revista
íntima, prática abolida em
2000, em que os familiares são obrigados
a tirar toda a roupa em frente a agentes
penitenciários, é uma das
normas que integra a portaria Nº 145
de 28 de novembro de 2007 da Secretaria
da Segurança Pública (SSP),
que estabelece o Regulamento geral para
ingresso de visitas e materiais em estabelecimentos
prisionais da Superintendência dos
Serviços Penitenciários.
Com o objetivo de frear a entrada de objetos
ilícitos como armas e drogas nos
presídios gaúchos, a medida
estava prevista para entrar em vigor depois
do carnaval, conforme a Superintendência
dos Serviços Penitenciários
(Susepe). Porém, na Penitenciária
Estadual de Livramento, segundo alguns familiares
dos apenados, o procedimento vem acontecendo
desde o ano passado. "Faz tempo que
não acontece mais o sistema das bolinhas
sorteadas; que eu me lembre, no Dia da Criança,
todo mundo teve que tirar a roupa",
disse a esposa de um dos presos que não
quis se identificar.
O diretor da Penitenciária Estadual
de Sant'Ana do Livramento, Jorge Figueira
Rodrigues, não confirmou a informação
e disse que a medida passou a ser adotada
no dia 20 de janeiro. Jorge explicou que
o retorno da revista é só
uma medida entre tantas que estão
sendo tomadas em todos os presídios
do estado. "Devido ao grande número
de objetos que estavam entrando nas prisões
e outros problemas, cada região vem
discutindo suas peculiaridades para aplicar
o que é necessário, segundo
o regulamento aprovado pela secretaria",
revelou.
Opinião
O diretor defende a opinião de que
com o retorno da revista íntima será
possível coibir a entrada desses
objetos, e ainda apontou que na penitenciária
de Livramento, o grande desafio é
frear a entrada de armas e cocaína.
Corroborando com esta opinião, a
juíza-diretora do Foro de Livramento,
Tânia da Rosa, e o promotor da execução
penal, José Eduardo Gonçalves,
em resposta aos questionamentos sobre a
volta das revistas íntimas nos presídios
do Estado, também manifestaram-se
favoráveis à portaria da Susepe.
Disseram ser uma medida necessária,
já que os apenados estão cada
vez mais sofisticados quanto à entrada
de objetos ilegais nas cadeias.
Revelaram ainda, não ser acertado
que o Estado seja sobrecarregado com despesas
de aparelhagem para proceder a outro tipo
de revista, assim como, entendem que a entrada
de ilícitos aumentou nos últimos
anos em função das facilidades
que eram dadas.
Com esta medida, os visitantes passarão
pela revista pessoal minuciosa. Terão
de ficar só com roupas íntimas
e passarão por detectores de metal
e inspeção visual, sem contato
físico. O visitante suspeito de portar
material ilícito deverá ficar
despido, e quando solicitado, terá
de agachar-se. A revista será feita
por profissional do mesmo sexo do visitante.

BANCO DE IMAGENS/AP
Na Penitenciária Estadual de Livramento,
a medida foi implantada um pouco antes do
previsto
O que pensam os familiares dos presos
"Isto é ridículo, eu
não vinha aqui desde julho visitar
o meu compadre, mas hoje disse pra ele que
seria a última vez. Não sabia
que havia mudado, tive até que trocar
de roupa com a minha filha, pois a minha
não era permitida, fiquei tão
mal que não consegui permanecer até
às 17h lá, saí antes,
me sinto humilhada".
B.K.P.*
"Eu só continuo vindo aqui
por causa dos meus filhos. Em outubro já
tínhamos sim, que tirar toda a roupa.
Tiramos na frente das crianças e
até de familiares de outros presos,
é uma falta de respeito. Além
de nos despir, ainda temos que segurar o
detector de metal e se agachar. Isso não
existe".
F.P.G.*
"Em novembro já era geral,
faz muito tempo que não é
mais o esquema das bolinhas, onde a cada
cinco pessoas uma era sorteada para ficar
de calcinha e sutiã. Nunca havia
precisado me despir, hoje tive que passar
por isso, é uma situação
horrível, venho porque senão
eu deixo de ver meu pai".
N.P.S.*
"Com certeza é humilhante,
mas o espelho é muito pior, logo
que retornou a revista, faziam todo mundo
passar no espelho para se agachar, pessoas
de idade avançada e crianças
passavam por isso, protestamos e eles deixaram
de usar, mas tudo depende do humor dos agentes,
se é um dia bom, ficamos só
com roupa íntima, caso contrário,
temos que nos despir".
J.S.S*
* Iniciais trocadas para manter o anonimato
dos depoentes
- Depoimentos colhidos no dia 30 de janeiro,
quarta-feira passada, dia de visita na Penitenciária.
Eu sou contra
Confira a opinião do jornalista
e consultor em Segurança Pública
e Direitos Humanos, Marcos Rolim, que recebeu
em 1999 o primeiro Prêmio UNESCO em
Direitos Humanos no Brasil, e que integrou
o coro dos que brigaram pela extinção
da revista em 2000, enviada por e-mail à
equipe de reportagem do jornal A Platéia,
sobre o retorno da medida:
"Trata-se de um retrocesso significativo.
Temos uma experiência acumulada com
muitos anos de revista íntima no
RS. Na época em que ela era realizada
indiscriminadamente, nunca deixamos de ter
problemas sérios de segurança
nos presídios. Em várias oportunidades,
tivemos motins com armas de fogo que, por
certo, não entraram no estabelecimento
acondicionada nas vaginas das visitantes.
A revista íntima é vexatória
e humilhante, só se prestando para
tensionar o ambiente interno das prisões,
porque as mulheres e os filhos dos apenados
que irão sofrer todo este constrangimento
comunicarão o fato aos presos.
Trata-se, no mais, de medida absolutamente
ilegal. Desafio os seus defensores a me
indicarem a lei que lhes autoriza a agir
desta forma. Mas, como se trata de familiares
de presos - vale dizer: de pessoas pobres
- as respeitáveis autoridades deste
estado - incluindo os zelosos Promotores
de Justiça - irão mais uma
vez fazer de conta que não há
nada de errado em despir mulheres para que
elas possam visitar seus maridos e filhos
nas masmorras criadas pelo Estado. A lei
é assim mesmo e, tal como as cobras,
só pica os que têm os pés
descalços.
Visitei presídios nos EUA, na Inglaterra,
na Espanha, na Itália, na Suécia
e no Uruguai e nunca vi nada parecido. Em
todos os lugares civilizados, quando há
contato de presos com familiares, os revistados
são os presos, quando do retorno
às celas. Aqui não. Os inteligentes
que administram nossas prisões, irão
mobilizar dezenas de funcionários
e funcionárias para acompanhar diligentemente
o processo de humilhação imposto
aos familiares sob o argumento abobado que
isso irá aumentar a segurança
nos estabelecimentos. Na verdade, a revista
íntima só é interessante
para os funcionários que traficam
drogas, celulares e outras coisas para dentro
das galerias, porque assim eles eliminam
a "concorrência".
O problema efetivamente grave quanto à
segurança prisional - que é
a entrada de armas de fogo - não
se resolve com o desnudamento dos visitantes,
mas com a rigorosa submissão de todos
- rigorosamente todos, a começar
pelos funcionários - a detector de
metal. Mas isso é muito complicado
para os que nos governam. Eles seguem achando
que não há problema algum
no fato de funcionários portarem
armas de fogo dentro dos presídios
- coisa única no mundo, também.
Enquanto isso, tratam de tornar a vida dos
familiares ainda mais insuportável....Nisto
eles são insuperáveis".
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