| Tensão
na Penitenciária
de Sant'Ana do Livramento
Quarenta detentos, alojados do chamado
pavilhão "C" da Penitenciária
Regional de Sant'Ana do Livramento, deram
fim, no início da tarde de ontem,
a uma greve de fome, que já durava
cerca de 24h.
Os motivos
Segundo os detentos, as freqüentes
agressões provocadas pelo administrador
substituto, Fábio Dos Santos Machado
e pelo Chefe da Disciplina, ao qual apenas
referiram-se pelo nome de Sidnei, foram
as principais causas do início da
greve de fome entre os 40 detentos. Com
cartas enviadas às rádios
e jornais da cidade, os detentos conseguiram
chamar a atenção para o problema
e exigir que suas reivindicações
fossem atendidas. A juíza Mirtes
Blum, que substitui a juíza Tânia
da Rosa, deslocou-se até o presídio
Regional onde ouviu diretamente dos presos,
os relatos de agressões sofridos.
Segundo um dos líderes do movimento,
Dagomar Roni Moraes, natural de Santa Maria
e condenado a 29 anos de prisão,
a medida adotada foi a única forma
encontrada capaz de fazer com que as vozes
dos detentos tivessem eco do lado de fora
dos muros.
Durante cerca de duas horas, a juíza
ouviu-os atentamente e fez anotações
sobre as declarações dos detentos
referentes ao caso. Um a um, os detentos
foram ouvidos e unânimes no que tange
aos nomes dos supostos agressores. "Queremos
apenas que haja uma mudança na administração
para que essas agressões tenham fim.
Nosso objetivo nunca foi dar início
a uma rebelião, pois sabemos as conseqüências
que isso implica, tanto para cada um de
nós, detentos, quanto para os familiares,
mas continuar desta forma, não dá",
afirmou Dagomar. Mirtes Blum comprometeu-se
a estudar cada um dos casos, que precisam
ser revisados a fim de dar uma resposta
rápida. Após ouvir alguns
presos separadamente, a Juíza, acompanhada
da defensora pública Sabrina Nassif,
de dois representantes do Conselho da Comunidade
e da reportagem do Jornal A Platéia,
teve acesso à galeria "C",
local onde encontravam-se os demais presos
em greve de fome. Protegida pelas grades,
a juíza anunciou aos presos a sua
presença e solicitou o fim da greve
de fome, pedido que foi imediatamente aceito
pelos detentos. Aplaudida, Mirtes Blum ainda
recebeu diretamente das mãos dos
detentos, algumas cartas e documentos que
pedem revisão de processos e análise
detalhada dos seus casos.
Susepe
Fábio dos Santos Machado, administrador
substituto, alegou não possuir autorização
da Susepe - Superintendência dos Serviços
Penitenciários, para manifestar-se
sobre o caso. Solícito, o administrador
colaborou durante todo tempo em que as autoridades
estiveram presentes no local. Passava do
meio-dia quando integrantes da Corregedoria
da Susepe, vindos da capital do Estado,
chegaram ao local para tomar ciência
dos fatos, ouvir os detentos e os acusados
pelas agressões e dar início
a montagem do relatório. O delegado
regional substituto da Susepe em Livramento,
Carlos Ronaldo, disse, em entrevista concedida
ao Jornal A Platéia, que não
tinha conhecimento formal dos fatos. Segundo
ele, os detentos não enviaram nenhuma
carta à delegacia informando as agressões
sofridas. Carlos Ronaldo afirmou ainda que
cabe agora à corregedoria analisar
os fatos para posteriormente informar o
tipo de procedimento a ser adotado.
Promotoria
O promotor José Eduardo Gonçalves
(Coquinho) afirmou que a promotoria irá
aguardar pelo relatório a ser elaborado
pela corregedoria da Susepe, para adotar
as medidas cabíveis. "É
preciso ter paciência e aguardar alguns
dias até que os fatos estejam todos
esclarecidos. Extra-oficialmente, duas hipóteses
podem ter levado ao desconforto dos presos,
a primeira delas é a troca repentina
dos administradores, fato que pode não
ter sido bem aceito pelos presos e, a segunda,
é o fato dos detentos estarem falando
a verdade. Nos dois casos é preciso
parcimônia", frisou o promotor.

CLEIZER MACIEL/ap
A Defensora Pública, Sabrina Nassif
(E), a Juíza Mirtes Blum (C) e o
administrador Fábio dos Santos (D)
Presídio Regional de Sant’Ana
do
Livramento, um barril de pólvora
Momentos antes da entrevista da Juíza
Mirtes Blum e da Defensora Pública
Sabrina Nassif, o administrador do Presídio
Regional de Sant'Ana do Livramento, apresentou
uma série de artefatos que foram
apreendidos na última revista feita
nas celas há poucos dias. Segundo
o administrador, somente nos últimos
quatro meses, quinze aparelhos de telefone
celular foram encontrados. Além destes,
armas de fabricação artesanal
são retiradas das celas a cada nova
revista. "Os procedimentos são
sempre os mesmos e é preciso estar
atento aqui dentro. Todo o cuidado é
pouco, quando falamos do sistema prisional",
declarou.
Os detentos aproveitam pedaços de
ferro, que fazem parte da estrutura das
camas de concreto, para fabricar as armas
que irão servir para o uso, em caso
de necessidade. Dentre as armas mostradas
e registradas com exclusividade pela reportagem
do Jornal A Platéia, está
uma faca artesanal que foi utilizada em
uma das agressões que resultou no
óbito de um dos detentos do Presídio
Regional de Sant'Ana do Livramento.

CLEIZER MACIEL/ap
Armas artesanais são encontradas
com freqüência durante as revistas
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