Em seu clássico
livro "O Profeta", Khalil Gibran
- talvez o mais conhecido escritor libanês
contemporâneo - conta a história
de Al-Mustafá, um homem que retorna
à sua terra. Os habitantes da aldeia
onde ficou todos estes anos pedem que ensine
o que aprendeu.
A seguir, alguns dos trechos (editados)
deste clássico do século XX:
O matrimônio
Vocês nasceram juntos, e juntos estarão
mesmo quando as asas brancas da morte terminem
com seus dias - porque continuarão
unidos na memória silenciosa de Deus.
Mas que haja espaço entre os dois.
Que o vento dos céus possa passar
entre seus corpos.
Amem, mas não transformem o amor
em uma atadura.
Que um encha o copo do outro, mas que jamais
bebam do mesmo copo.
Cantem e dancem, estejam alegres, mas que
cada um mantenha sua independência;
as cordas de um alaúde estão
sozinhas, embora vibrem com a mesma música.
Entreguem o seu coração, mas
não para que seu companheiro o possua
- porque só a mão da Vida
pode conter corações inteiros.
Estejam juntos, mas não demasiados
juntos - porque os pilares de um templo
estão separados.
O carvalho não cresce à sombra
do cipreste, e o cipreste não consegue
crescer à sombra do carvalho.
Os filhos
Seus filhos não são seus
filhos; são filhos e filhas da vida.
Vieram através de vocês, mas
não lhe pertencem.
Podem dar seu amor, mas não seus
pensamentos - porque eles têm seus
próprios sonhos.
Podem proteger seus corpos, mas não
suas almas - porque suas almas habitam na
casa do amanhã, que mesmo em sonho
vocês não podem visitar.
Podem tentar ser como eles, mas não
tentem fazer com que se comportem como vocês;
porque a vida não retrocede, nem
se deixa seduzir pelo dia de ontem.
Vocês são o arco onde seus
filhos, como flechas vivas, são impulsionados
para adiante; deixem que a mão do
Arqueiro trabalhe, porque assim como Ele
ama a flecha que voa, também ama
o arco, que permanece estável.
O amor
Quando o amor chamar, aceitem seu chamado,
mesmo que o caminho seja duro, difícil.
E quando suas asas se abrirem, entreguem-se,
mesmo que a espada que está ali escondida
termine provocando ferimentos.
E quando o amor disser algo, acreditem,
mesmo que sua voz destrua seus sonhos, como
o vento do norte devasta os jardins.
Porque o amor glorifica e crucifica. Faz
crescer os ramos, e os poda. Tritura os
homens, até que estejam flexíveis
e dóceis. Os queima em fogo divino,
para que possa converter-se em um pão
sagrado, que será consumido no banquete
de Deus.
Entretanto, se tiverem medo, e quiserem
encontrar no amor apenas a paz e o prazer,
melhor que se afastem de sua porta, e procurem
outro mundo, onde poderão rir mas
sem toda alegria, e poderão chorar
mas sem usar todas as lágrimas.
O amor não dá nada e não
pede nada além de si mesmo. O amor
não possui nem é possuído
- porque ele se basta.
E não tentem dirigir o seu curso:
porque se o amor achar que são dignos,
ele os dirigirá até onde devem
chegar.
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