As
tristes
praias
gaúchas
Estou no litoral norte,
neste Natal e nestes últimos dias
de 2008, véspera de Ano- Novo.
Segunda-feira, 29 de dezembro. Do apartamento,
contemplo o mar e as ondas morenas que se
esparramam na beira da praia. Sim, a água
não é azul ou verde. Tem uma
cor de chocolate, para não dizer
cor de barro.
Venta, e poucos são aqueles que neste
fim de tarde se animam a caminhar à
beira d'água. Na água, propriamente,
não há ninguém. Faz
frio, e durante o dia todo a água
permaneceu gelada, mesmo no pouco tempo
em que o sol apareceu. Foi o que me disse
meu neto: várias vezes ele tentou
colocar o pé na água do mar.
Vê-se bem, de onde estou, os raquíticos
quiosques que servem aos veranistas uma
pequena opção de pastéis,
além de milho verde. E bebidas populares
de qualidade questionável. E nada
mais, porque a pequenez de suas instalações
não permite aos proprietários
dessas tendas minúsculas, mesmo que
o queiram, ampliar os serviços ofertados.
É uma paisagem morna, enfadonha,
triste.
Ora, se a natureza não nos contempla,
aqui neste canto sul do Brasil, com praias
fantásticas como as do Nordeste,
ou, para falar das mais próximas,
como as de Santa Catarina, o lógico
e o razoável é que tivéssemos
uma infra-estrutura de apoio cativante e
eficiente, para nos sentirmos bem aquinhoados
com serviços de qualidade.
Vá ao Nordeste e você vai encontrar
nas praias belíssimas que cercam
Natal, Fortaleza, Maceió, entre as
mais conhecidas, "barracas" luxuosas,
com uma gama enorme de ofertas. Desde restaurantes
com comida variada e de qualidade, até
instalações sanitárias
dignas. Aqui, quem precisar e tiver coragem,
deve contentar-se com esse terríveis
sanitários ambulantes, constrangedores
e anti-higiênicos.
Mas o que é que falta? Empresários
audaciosos? Não há sequer
um empreendedor interessado e capaz de investimentos
de lazer para os veranistas?
Claro que os há e em quantidade.
Basta ver esses ricos condomínios
fechados que brotam, a cada ano, em todas
as principais praias do litoral norte. Nem
é preciso tanto. Os proprietários
dos nossos quiosques, em outros tempos,
já tiveram oportunidade de oferecer
melhores serviços. E estão
dispostos a isso, se a isso tiverem possibilidade.
Mas há, a impedir qualquer iniciativa,
uma mentalidade burra, tacanha, do tempo
das cavernas. Sob o pretexto de proteger
nossos cômoros, nossas corujas e nossas
tatuíras, tudo é proibido,
nada é permitido.
Este ano há uma novidade a mais:
os proprietários dos quiosques que
oferecem o aluguel de barracas, só
podem armá-las se o freguês
estiver presente. É impossível
você convencionar com o Zé
da barraca que ele a deixe pronta a partir
de determinada hora, quando você chegar
à praia, no dia seguinte.
Não, não ria, não é
brincadeira. É mesmo assim.
Depois, queixam-se quando os humoristas
fazem piadas com os gaúchos e suas
patacoadas.
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